Uma reflexão sobre a Obsessão Troca da Guarda

Esse é um clichê na lista de muitos que vêm para Londres. Eu não tenho nada contra um programa assim. Adoro andar por Notting Hill (mesmo lotada) e sempre suspiro quando vejo a Millenium Bridge.

Perceba: a possibilidade de clichês turísticos por aqui é gigante, você pode escolher com folga.

Então por que essa obsessão com a troca da guarda?

Não tenho resposta, só algumas reflexões. É que esse assunto me fascina!

Vivemos um tempo em que nunca se investiu tanto em experiências e em viagens. Por outro lado, nunca estivemos tão distante do conceito de viagem como oportunidade de transformação, como experiência existencial.

Viajar hoje é currículo lattes; lista de afazeres. Você tenta escapar, subir a montanha, mas está nas nossas veias. É assim que existimos no mundo. Essa é a nossa visão de mundo e tempo.

A quantidade de gente que investe um dinheiro além de suas possibilidades, tudo para estar aqui por 5 dias e, no entanto, sente-se compelida a ficar espremida numa multidão, sem nem ao menos saber o por quê do seu desejo em estar ali… é fascinante para o meu ser! Explico.

Escuto: tenho que ir porque… quando vou voltar aqui? Quero fazer tudo que for importante.

FOMO (fear of missing out), certo? E eu concordo. Há que se concordar. Por outro lado, falta visão sobre o que é importante para si.

Em última análise, falta autoria no desejo, logo na viagem. Estão todos espremidos nos portões do Buckingham Palace para agradar um olhar de fora e esquecer de dentro.

Nada contra a troca da guarda em si, mas o expectador deve ter interesse por um mundo muito específico. Protocolos, banda militares etc. E sim, isso tudo pode ser muito interessante, se os seus olhos brilharem com esse mundo.

Só pela foto, não vale.

O meu lamento é que Londres pode dar muito mais que um registro espremido no meio da multidão. Londres tem vocação para te oferecer brilho nos olhos.

E eu volto mais uma vez nas palavras de Zadig: é preciso ter olhos de ver.

Essa é a pecinha que aparentemente falta em quem sofre da obsessão "troca da guarda". Olhos de ver. Discernimento e clareza sobre si. É preciso ter consigo ao viajar e ao experimentar o mundo. Olhar para dentro ao olhar para fora. Olhar fora a partir do que se vê por dentro. Ficou enigmático, não é?

Fico pasma com o desperdício de oportunidade de 'Ser' e todo resto, só para se ter esse registro. Atravessamos oceanos, gastamos dinheiro, tempo, tudo para satisfazer um outro. Contamos dedinhos, corações, comentários. Criamos uma narrativa fantasiosa de algo que não estamos vivendo e, no meio da viagem algo se perde…

…a gente. A gente fica pelo caminho.